APAGAMENTO

RENATO CASTANHARI

13.07 a 12.08.2017

Curadoria: Nathalia Lavigne​

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Há uma distância necessária para olhar as obras de Renato Castanhari apresentadas nesta mostra. Embora a dimensão reduzida das telas e objetos seja um convite à aproximação, é preciso um certo afastamento para observar o jogo de sombras criado pelo artista ao redor dos trabalhos – ora com efeitos da própria iluminação, ora com a pintura de silhuetas fictícias. Ou a transparência das telas deixadas quase sem tinta, revelando a estrutura dos chassis de madeira.
 
Em dados momentos, essa distância se torna quase obrigatória. Como, por exemplo, ao nos depararmos com uma barra de ferro pintada de preto e presa transversalmente à parede, ocupando um espaço que exige um desvio no percurso. Logo a seguir, uma pintura de pequena dimensão convida a um movimento contrário. O olhar busca novamente uma aproximação: seja para enxergar a espessura mínima da camada de tinta sobre ela, que deixa à mostra a trama do tecido por trás; ou, em outro momento, para entender a sutileza de um objeto criado com dobras de tecido mergulhado em tinta acrílica, transformando-se em uma tela minúscula (5x5 cm), com contornos e volume um tanto imprecisos.
 
O embate entre o afastamento e a proximidade que parece dar o ritmo desta exposição encontra alguns precedentes clássicos. O americano Barnett Newman – para quem a desorientação causada ao ver de perto uma pintura de grandes dimensões como Vir Heroicus Sublimis (1950-51) era parte essencial da experiência, enquanto a tendência natural seria contemplá-la de longe, – é talvez o exemplo mais claro referenciado pelo artista. Mas, no caso de Renato, a razão desse embate é um pouco distinta. Apesar de tratar também de questões semelhantes, como os limites da tela, seu interesse maior está em confrontar a relação ambígua desses trabalhos com o espaço. Há nesses objetos uma vontade latente de deixar o suporte bidimensional, embora permaneçam na parede, mantendo-se, de alguma forma, presos a esta condição.
 
Ainda que não se concretize completamente, o processo de expansão das pinturas para o espaço vai se desenhando de maneira gradual e fragmentada. Nesse sentido, a noção de apagamento, que dá nome à mostra, é um ponto fundamental. Se na produção inicial do artista já era possível observar uma remoção de elementos, cores e camadas, esse gesto passa a acontecer também como uma tentativa de desmaterialização deste suporte. Começa, primeiro, com a redução da tinta sobre a tela a operações mínimas – como na pintura que se resume a uma massa de tinta concentrada no canto esquerdo inferior. Depois, nos pedaços de tecido que parecem se soltar da tela – ou outros que de fato já se desprenderam complemente, tornando-se objetos autônomos.
 
A forma como alguns desses tecidos são exibidos, esticados verticalmente e enrijecidos após terem sido mergulhados em tinta acrílica, revela também a predileção do artista por tal formato. O corpo aparece como referência direta nessa escolha, numa duplicidade de proporções que se concretiza nesse movimento de ir e vir, em algum lugar entre a distância e a proximidade em constante definição.

Nathalia Lavigne​