SEM SORTE NO CASSINO E OUTRAS PINTURAS

MARCELO PACHECO

23.08 a 15.09.2018

Curadoria: Douglas de Freitas

Mostrar Mais

 

Sem sorte no cassino e outras pinturas de Marcelo Pacheco.

 

Na história das civilizações, a matemática sempre desempenhou papel fundamental na evolução do homem. É a partir dela que o mundo se constrói, mesmo que de maneira intuitiva. Arquitetura, engenharia, e arte aplicada fazem uso da matemática para a construção de seus padrões, elementos, e possíveis regras geométricas para conferir às coisas formas com ideias de perfeição, de regularidade, de encaixe.

 

 

A geometria se faz presente no trabalho de Marcelo Pacheco. O artista realiza pinturas de óleo sobre tela, ou sobre madeira, onde um jogo de composição entre figuração e abstração é construído, onde a exatidão matemática de uma construção geométrica é elaborada, para logo depois ser desmontada através da pintura. A geometria surge como elemento estrutural em boa parte dos trabalhos, define limites, estabelece margens e grids para os elementos e acontecimentos do trabalho. No entanto, esses padrões criados pelo artista são uma geometria mole, construída sem rigidez, que por vezes se convertem em formas orgânicas, elementos arquitetônicos e paisagens.

 

Essa geometria imprecisa de Pacheco se molda a partir da geometria do mundo. Os elementos da cidade, como fachadas, portões, muros, janelas, toldos, padronagens de tecidos e artigos de origem popular, assim como representações prévias desses elementos realizadas por outros artistas, são pontos de partida para as pinturas. Desse modo, padrões de estamparia e a paisagem da cidade misturam-se a elementos e tons das pinturas de Matisse, Volpi e outras referências consolidadas na história da arte. Na pintura Nesse mundo, por exemplo, o que se vê é um elemento compositivo de um dos afrescos de Giotto, que agora surge puro, emoldurando uma área vazia, sem nenhuma pintura além da base branca.

 

A tela em si é parte integrante da composição das pinturas do artista. Alguns trabalhos, além da moldura e da pintura de padronagens, recebem tachinhas nas laterais, as quais acabam por participar da composição. Em Sem sorte no cassino, uma série de elementos ocupa apenas a parte superior, e pouco mais da metade do trabalho é um chapado de um tom bege. Porém, as pequenas tachinhas na lateral ressaltam o movimento criado pelo padrão pintado e estabilizam o fluxo da composição na tela. Em outros trabalhos, a própria pintura é realizada em caixas de madeira já existentes coletadas pelo artista. Essas pinturas avançam da parede, como no caso de Estudo para bandeira (janela azul), onde elementos arquitetônicos e geométricos são pintados em uma caixa de madeira, como uma arquitetura contida em outra arquitetura.

 

Em um dos trabalhos mais recentes, a pintura se assume como escultura. Um fragmento de uma antiga janela recebe cortes e padrões de pintura através de intervenções do artista. Firmada em um cubo de mármore, ganha autonomia da parede e reverencia o pensamento escultórico de Brancusi, não apenas em sua Coluna infinita, mas também na própria maneira de pensar a escultura, onde a base é parte constituinte da obra, e não apenas suporte. 

 

 

Se estabilidade, arquitetura e estamparia se fincam na precisão matemática para existir, a matemática da geometria de Marcelo Pacheco é imprecisa. Ela se molda ao mundo, e é moldada por ele, em um jogo de estabilidade armada através do desmonte.

 

Douglas de Freitas