DENTROFORA VOL. 2 FORMA

FELIPE COHEN E LAURA BELÉM

01.04 a 30.04.2016

Curadoria: Douglas de Fretias

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A Praça Benedito Calixto tem sua formação intimamente ligada ao comércio e à urbanização do bairro de Pinheiros. Toda a região de Pinheiros nasce ligada ao Mercado de Pinheiros; criado oficialmente em 1910, o mercado surgiu em 1867 conhecido na época como “Mercado dos Caipiras”(1), pois boa parte do comércio lá realizado atendia aos consumidores e produtores do interior de São Paulo, que chegavam à região via Rio Pinheiros. O mercado se localizava onde é hoje o Largo da Batata, passando para o endereço atual em 1971, em razão da construção da Avenida Brigadeiro Faria Lima. 

No fim do século XIX, com o desenvolvimento da cidade e o loteamento da região, criaram-se as ruas Teodoro Sampaio e  Joaquim Azevedo (atual Cardeal Arcoverde), para realizar a ligação do Mercado à cidade. Em 1904 a rua Teodoro Sampaio recebeu o bonde, que chegava até a Rua João Moura. Em determinado trecho, porém, um brejo impedia que o bonde continuasse,e o trajeto até o Mercado deveria ser feito a pé. Só em 1909, com o aterro do brejo, foi possível a continução da linha do bonde até o Largo de Pinheiros.

A chegada do bonde trouxe também a intensificação do núcleo residencial e do comércio. Em 1923 foi publicada na revista “O Calvário” a planta da igreja do Calvário, iniciando uma campanha de arrecadação de fundos para a construção. Loca-lizada na esquina da Rua Cardeal Arcoverde com a Rua Lisboa, as obras tiveram início em 1926, e terminaram em 1930.  A ligação da Igreja com a Rua Teodoro Sampaio, onde passava o bonde, era feita por uma estreita passagem, até que em 1925, o Dr. Claudio de Souza, proprietário de um grande lote na Rua Lisboa, ofereceu à prefeitura uma faixa 30 metros do seu terreno para que ali se construísse uma “praça familiar” e para facilitar a ligação das ruas Teodoro Sampaio e Cardeal Arcoverde (2). Antes do alargamento da Rua Cardeal Arcoverde, a configuração de implantação da igreja já ambicionava o terreno como praça que antecedia a entrada da Igreja, que fiava no ponto mais alto da região. 

Em 1936 a praça foi oficialmente inaugurada e nomeada Benedito Calixto, em homenagem ao artista, historiador e astrônomo amador. A homenagem ao artista deve-se, em grande parte, aos esforços de seu neto, Benedito Calixto de Jesus Neto, arquiteto considerado especialista em construções religiosas que projetou tanto no Estado de São Paulo como na Capital, respectivamente a muito conhecida Basílica de Nossa Senhora Aparecida, e também o TUCA (Teatro da Universidade Católica), onde buscou a integridade visual entre o conjunto da fachada da Universidade (PUC) e a Igreja do Coração Imaculado de Maria. Benedito Calixto de Jesus Neto projetou também o altar-mor da Igreja do Calvário. A Praça, tal como a conhecemos hoje, é resultado do projeto da Associação de Amigos da Praça Benedito Calixto. Na década de 1980, a praça estava abandonada; formou-se então uma Associação de Amigos, com o objeto de conseguir melhorias.  A Prefeitura licitou o projeto, mas, com a mudança de governo, o projeto foi alterado, e não atendia às demandas dos usuários, já que a nova gestão pretendia construir banheiros públicos na praça (3). Por força da associação, as obras foram paralisadas, e o projeto original que previa espaços de lazer, esportes e eventos, foi parcialmente atendido. Após o término das obras, a Associação passou a fazer a gestão dos eventos da praça, iniciando em 1987 a hoje tradicional Feira de Artes, Cultura e Lazer da Praça Benedito Calixto. 

A partir deste contexto foi pensado o perfil dos artistas convidados a participar deste projeto.  Dividindo-o em quatro módulos, vol.1 Impresso (4) , vol.2 forma, vol.3 utensílio e vol.4 troca, extraídos do cotidiano da Feira e da Praça Benedito Calixto, o que se pretende é uma curadoria que se dilua no tempo, ampliando e intensificando potencializando a participarão dos artiStas, para não ter uma perda de potência no projeto, evitar uma leitura superficial deste contexto, e consequentemente, evitar uma simples ilustração da praça dentro da galeria.  Assim, ‘DentroFora’ foi concebido com a proposta de que oito artistas, não representados pela galeria, divididos em duplas, se apresentem em quatro exposições que ocuparão a galeria entre setembro de 2015 e maio de 2017. 

No entanto, não se trata da encomenda de obras site specific[não que elas não possam acontecer...]. O projeto em si está intimamente ligado ao espaço da Praça e responde às questões dela, mas as obras partem desse contexto para ganhar autonomia e continuar existindo mesmo em outro contexto. O que se propõe aqui é que trabalhos novos e trabalhos anteriores possam se articular dentro de cada módulo da exposição, criando não apenas um diálogo entre os artistas, mas também um diálogo entre a Galeria e a Praça, refletindo sobre a torção de sentido que aqueles objetos e demais elementos sofrem ao cruzar a rua, saindo do espaço público, migrando para o espaço da arte.  

Douglas de Freitas 

Agradecimentos: Bruno Faria, Fabio Morais, Galeria Vermelho, Leandro Oliveira, Marfísia Lancellotti Marcoas Preto, Maria Emília e a Associação de Amigos da Praça Benedito Calixto.

1. Amaral, Antonio Barreto de. O Bairro de Pinheiros. 3.ed. São Paulo: SEC, 1985 (série História dos Bairros de São Paulo).

2. ANAES DA CAMARA MUNICIPAL, requerimento n.06, Vereador Julio Silva (1925, p. 15).

3. Folha de São Paulo de 14 de novembro de 1986, acervo do Arquivo Histórico de São Paulo.

4. Com obras dos artitas Bruno Faria e Fabio Morais, “Vol.1 Impresso” aconteceu entre 2 de setembro e 10 de outubro de 2015. O encerramento da exposição contou com uma ação do artita Guto Lacaz.