FUI EU SIM

ALLAN SIEBER

25.10 A 24.11.2018

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A FABULOSA PINTURA DE ALLAN SIEBER

 – Esqueçam meu passado! Rasguem meus livros, queimem meus gibis! Maldito crachá eterno de cartunista que só me sabota! Ouve bem: Não escreve que sou cartunista! 

Foi assim, aos brados, que Allan Sieber me recebeu logo que adentrei seu estúdio, numa pacata vila entre Copa e Ipanema, bem pertinho do atelier do finado Millôr na praça General Osório e por onde quase podemos ver Jaguar indo beber no Marimbás (quando ele bebia). Ops, já comecei mal, citando dois cartunistas. Mas como o Allan achou que eu seguiria suas coordenadas? A petulância...

Pois bem, acho que ele está redondamente enganado nessa histeria em renegar seu passado (?) de cartunista em prol de uma nova carreira como pintor. Minha educação gráfica se deu justamente com o cartum, em jornais de humor como O Pasquim e Planeta Diário. Não vejo conflito algum ou muito menos “esquizofrenia” como teme Allan em busca de novos horizontes.

– Esse pessoal das artes plásticas me olha torto porque sempre trabalhei com humor, porque sou “cartunista”! Acham que minha pintura é uma espécie de hobby ou algo tão vagabundo quanto!

Bom, hobby posso assegurar que não é, pois vi dezenas de telas pintadas esse ano. Aliás, no não muito distante 2016, foi no meu estúdio que Allan expôs suas primeiras pinturas, feitas atrás de posters que ele tinha nas paredes do seu estúdio. Era Eucatex mas preferimos chamar de “acrílica em madeira” na ocasião. Acho que foi ele que insistiu nessa denominação, não lembro bem. Agora sem as mãos, se chamava a pequena individual relâmpago. Chovia, mas mesmo assim foi bastante gente e conseguimos vender uns quadros.


De lá pra cá Allan pintou muito mais, perdeu alguns empregos e amigos, se separou e passou a morar no seu estúdio, que ele chama de bunker. Recentemente, numa jogada de antimarketing de gosto duvidoso, abriu sua “galeria” em um dos cômodos da casa, A Hostil Carioca. Sempre fazendo amigos.

Nessa  Fui eu sim temos telas onde ele escreve bastante e desenhos onde escreve mais
ainda. Se o intuito era fazer as pessoas esquecerem seu passado de cartunista-que-escreve-em-balões, o plano não deu muito certo.

Sobretudo Allan se mantém na resistência, afrontando o politicamente correto nesses tempos neopentecostais onde uma simples flatulência já é caso de polícia. Nisso o artista se inscreve numa tradição de grandes mestres lobos solitários, pontos fora da curva como Robert Crumb, confesso mestre dele desde sempre. Pois se Crumb tem retrospectiva gigantesca no Musée d’Art Moderne de la Ville de Paris e é representado por uma galeria do porte da David Zwirner, por que Allan não pode migrar para o grand monde das artes plásticas? Allan é um Crumb tropical. Talvez Allan Sieber seja o maior inimigo de Allan Sieber. “Livre como um táxi” é uma frase que me vem à cabeça agora. Há controvérsias sobre o que Millôr queria dizer com essa frase. Entendo que a coisa pior para um táxi é estar livre, desocupado. Um desconforto com a liberdade: só almas muito atormentadas sentem isso.

Em Fui eu sim também tem uma sessão de “proibido para menores” onde a turminha do MBL pode fazer a festa devido ao conteúdo semipornográfico. Não é coisa para colocar na sala de estar, mas, quem sabe, no banheiro? Outro paralelo com R. Crumb, a obsessão pelo ato sexual e os embates em torno dele. Talvez a mais singela obra de toda a exposição seja uma sequência de 4 fotos da própria glande do artista pintada com diferentes carinhas, quase emoticons, “Paufies #01 - #04”. Sim, eu tive que ver isso para escrever esse texto, senhoras e senhores...​

Eu ia falar algo sobre Deleuze, vórtices e coisas profundas, mas acho que não precisa. É isso, não atirem no mensageiro.

Raul Mourão
outubro de 2018.