HECATOMBE

CAROLINA MAROSTICA, FLORA REBOLLO, GUILHERME CALLEGARI, JOÃO GG, JOÃO REYNALDO
RICARDO ALVES, SERGIO PINZÓN E THIAGO BARBALHOHECATOMBE

 

16.06 a 14.07.2018

Curadoria: Thierry Freitas

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São dois os signi cados mais conhecidos de “Hecatombe”. Na Grécia antiga, a palavra era utilizada para designar a matança de cem bois em comemoração a vitórias em batalhas; hoje, seu caráter de celebração esvaiu-se e o termo passou a estar associado a grandes tragédias e catástrofes. Esta exposição, imaginada como uma narrativa aberta, abriga trabalhos que se aproximam, em maior ou menor grau, de uma ideia de desastre ou cujos discursos buscam se afastar daquilo que entendemos como “realidade”. A barafunda, no entanto, é visual e a maioria das obras aqui apresentadas é de forte impacto cromático por suas paletas de tons carregados, e suas cores cítricas e saturadas.

 

Em uma parede estão obras criadas em suportes tradicionais (pintura e desenho) em que os planos gurativos compõem-se de maneira agitada, por vezes indisciplinada. Nesse lado da exposição, Thiago Barbalho e Flora Rebollo desenham mundos sintéticos e pouco reconhecíveis. Suas guras parecem vir de outros planos de consciência, sejam eles arti ciais ou transcendentais; suas gurações, vistas de longe, beiram a abstração. Guilherme Callegari participa com uma pintura em que respingos de tinta e logomarcas automotivas convivem com seu interesse por tipogra as (que, de tão diversas, frequentemente resultam na criação de novos códigos e neologismos); e Ricardo Alves exibe duas telas em que representa grandes explosões luminosas e coloridas, em diálogo com alguns dos temas explorados recentemente em sua produção: planetas, galáxias e outros corpos celestes.

 

Do lado oposto, estão reunidas peças nascidas a partir de artefatos industriais ou residuais. A composição apresentada por Carolina Marostica funciona como uma teia em que a artista prende sobras e refugos de tintas de cores ácidas e outros materiais que se aglomeraram ao longo do tempo em seu ateliê. A visualidade e o título do trabalho de Sérgio Pinzón, Flavin corrompido,

remontam à herança do minimalismo norte- americano, mas o suporte em que as duas lâmpadas uorescentes estão instaladas o aproxima de uma herança nacional: trata-se de uma sanca de gesso, elemento muito comum e presente na arquitetura eclética brasileira e em lares de famílias de classe média do início desta década. De João Reynaldo é exibida uma composição de trabalhos que o artista desenvolve há quatro anos. Seu meio é a máquina de escrever e, para a exposição, foram selecionados datiloscritos realizados sobre tecido, papel e outros suportes simples encontrados, em sua maioria, pelas ruas.

 

Duas obras de caráter instalativo, alocadas em espaços menos comuns como o teto e um quarto anexo à sala de exibição, encerram Hecatombe. Se nos trabalhos já citados a passagem do tempo e a guração de grandes acontecimentos são características intrínsecas, a suspensão das ações e a incerteza sobre o que se tem em vista colaboram para a sugestão de mistério e hesitação nas obras de Carolina Marostica e João GG. O grande objeto criado por Marostica escorre do teto da galeria e se desenrola até as paredes da exposição, como se as cores existentes na maioria dos trabalhos da artista tomassem formas tridimensionais e passeassem pelo ambiente. João GG, por m, apresenta um trabalho que faz referência a um conto do século XVII, “Barba azul”, do autor francês Charles Perrault. A história de caráter moralizante é sobre um nobre que assassina as esposas que a ele não foram obedientes. GG realiza sua releitura a partir de alguns objetos em comum com os da história, convidando o espectador a questionar e imaginar novas situações a partir da narrativa.

 

Thierry Freitas, Junho de 2018.

 

Agradecimentos:
Barbara Wagner Mastrobuono, Galeria Pilar, José Augusto Ribeiro e Mariana Cobuci.