DENTROFORA VOL. 1 IMPRESSO

BRUNO FARIA e FABIO MORAIS

03.09 a 10.10.2015

Curadoria: Douglas de Freitas

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Vol. 1 _ Impresso


Bruno Faria e Fabio Morais
Setembro de 2015


im.pres.so


adj (lat impressu) 1 Que se imprimiu. 2 Gravado, fixo. sm 1 Folheto ou papel impresso. 2 Obra de tipografia.


Um dos fatores que colaborou para a criação e desenvolvimento da Feira de Arte e Cultura da Praça Benedito Calixto foi o ambiente social que se implantou no seu entorno entre as décadas de 1970 e 1980. Nesse período, marcado pela ditadura militar e pela censura, vários espaços culturais se estabeleceram na praça, e passaram a ser ponto de encontro de artistas e intelectuais de esquerda.


Esse contexto sociocultural se reflete nos trabalhos dos artistas Bruno Faria e Fabio Morais que foram convidados para esta primeira edição do projeto “DentoFora”. A ideia geral de impresso, que serve de guia para esta edição do projeto, inspira-se no comércio de impressos da Feira, tanto no que diz respeito a livros, panfletos, revistas antigas e mídia impressa de modo geral, quanto no comércio de discos, cujas capas apresentam um projeto gráfico que pensa os mesmos elementos, e também passam por uma prensa para marcar seu áudio, servindo de fonte aos artistas.


Em 1979 instalou-se em um porão de uma loja de móveis na Praça Benedito Calixto (mais precisamente no numero 1091 da Teodoro Sampaio) o Teatro Lira Paulistana , que ficou neste mesmo endereço até 1986. Além de teatro, o espaço passou a ter atividades ligadas à música, cinema, artes e literatura, e mais pra frente gravadora e editora. Por quase duas décadas, lá se apresentaram grupos musicais alternativos e bandas de rock, que chegaram a ocupar também a Praça Benedito Calixto com seus shows. Esse histórico explica a existência de tantas bancas de comércio de discos na Feira da Praça Benedito Calixto.


É desse comércio que parte o trabalho do artista Bruno Faria, que vem colecionando discos com capas e identidade visual desenvolvidos por também artistas. Em Introdução à História da Arte Brasileira 1960/90 o artista selecionou 168 discos, em uma proposta de convergência entre artes visuais e música presentes no cenário cultural daquelas décadas. Aparecem capas de Hélio Oiticica, Regina Vater, Rubens Gerchman, Guto Lacaz, Fernanda Gomes, entre outros. Para além da própria visualidade de cada época, o trabalho também transpassa pela atuação da ditadura militar no cenário cultural do país, onde discos riscados, como em As Aventuras da Blitz, de 1982 da banda BLITZ, e capas censuradas, como em Índia, de 1973, de Gal Costa, aparecem em meio aos discos selecionados pelo artista, propondo uma leitura política e cultural da época por meio do projeto gráfico das capas. Na instalação os discos estão disponíveis para serem ouvidos pelo público; o som é reproduzido em toda a Galeria e, ao remover o disco da prateleira, se revela o nome do artista responsável pelo projeto gráfico da capa. Entre os músicos que aparecem no trabalho, alguns chegaram a se apresentar no Lira Paulista, como por exemplo as bandas Ira, Titãs, e Ultraje a Rigor.


Em Estudo para Composição Bruno contou com a colaboração de Leandro Oliveira, maestro e professor da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), para criar uma tradução visual para o ciclo de 14 choros de Heitor Villa Lobos. Os choros, escritos entre 1920 e 1928, são considerados responsáveis pela inserção internacional do compositor, e encontravam uma saída definitivamente moderna para a relação entre arte popular e clássica na música. As partituras de Bruno Faria receberam os choros em uma codificação visual, os considerados símbolos da Bauhaus, criados por Kandinsky em 1923, e que traz as três formas elementares relacionadas às cores primárias. “O triângulo, dinâmico, seria inerentemente amarelo; o quadrado, estático, intrinsecamente vermelho; e o círculo, com sua serenidade, naturalmente azul”. A partir desta descrição, o ritmo dos choros ganha forma e cor em uma tradução rítmica e poética. Os choros 13 e 14 ficaram em branco, os originais de Villa Lobos se perderam, e alguns especialistas acreditam que ele teria planejado os choros, mas nunca os tenha finalizado.

 

A identidade visual de uma época está presente também em Alucinação Coletiva, de Fabio Morais. A memória, vida útil, fluxo e circulação de materiais impressos, são elementos explorados na produção do artista. A mídia impressa, para além de sua venda como elemento de memória, tem forte presença na região, que contava com a Gazeta de Pinheiros, fundada em 1954, o Jornal do Bairro, fundado em 1967, e a Revista da Praça, criada no fim dos anos 1990 pela própria Associação de Amigos da Praça Benedito Calixto. No trabalho desenvolvido por Fabio, uma série de manchetes extraídas das revistas O Cruzeiro e Manchete, ambas das décadas de 1960 e 1970, são rediagramadas pelo artista e formam um novo jornal, que fica disponível na galeria para ser levado pelo público.

 

Descontextualizadas do conteúdo original, as manchetes mantém a tipografia usual nas décadas de 1960/1970, mas se tornam atuais, um ruído de tempo que também se encontra nos objetos comercializados na Praça. Alucinação coletiva mimetiza também o caos arquitetônico das barracas da praça, do garimpo dos objetos e do fluxo confuso das pessoas os sábados durante a Feira.


É também do fluxo da Praça que CMYK de Fabio Morais trata. A presença gay na Praça que se iniciou nos anos 1980 teve um ápice na década de 1990, e continua até hoje, principalmente nos bares da praça após o término da Feira, sendo ponto de partida para o CMYK, referência ao sistema de impressão de cores atual. No trabalho, um pôster recebe de um lado a reprodução de duas imagens adquiridas pelo artista na Feira da Praça.

Nelas um grupo de rapazes tira fotografias em poses que se parecem as de selfies atuais, mas as imagens datam da década de 1930, supostamente tiradas em cabines fotográficas automáticas. As imagens, originalmente em preto e branco, e atualmente amarelecidas pela ação do tempo, são impressas em quatro cores, em sépia, tal e qual as originas. Do outro lado, é impressa uma bandeira do movimento LGBT em tons de cinza. Em uma inversão cromática, o que deveria estar preto e branco está colorido, e o que é colorido está velado em preto e branco.


A circulação e fluxo dos elementos impressos é o que rege o vol.1 do projeto ,DentroFora”. O colecionismo, ponto de partida dos trabalhos, é também o que movimenta boa parte do comércio da Feira de Arte e Cultura da Praça Benedito Calixto. Se a coleção que origina o trabalho de Bruno Faria deixa a circulação no espaço público para se reunir, organizar, e se tornar inteligível na Galeria, a coleção de Fabio Morais se organiza em uma nova lógica, para então retornar à circulação no espaço público, com uma nova forma e função.


Douglas de Freitas | Setembro de 2015


1 - Em um porão de São Paulo: O Lira Paulistana e a Produção Alternativa. Laerte Fernandes de Oliveira. São Paulo: Annablume: Fapesp, 2002.


2 - Lupton, Ellen; Miller, J. Abbott. (orgs). ABC da Bauhaus: a Bauhaus e a teoria do design. São Paulo: Cosac Naify, 2008. (trad. André Storlarski).