O MARAVILHAMENTO DAS COISAS

BRUNO BRITO, DANIEL BARCLAY, LEDA CATUNDA, MANO PENALVA, MARIANO BARONE, MARTIN LANEZAN, MATHEUS CHIARATTI, MAYLA GOERISCH, SERGIO PINZÓN E TATIANA DALLA BONA

1.03 a 31.03.201

Curadoria: Julie Dumont

Mostrar Mais

 

* * *

 

 

O Maravilhamento das Coisas parte do desejo de mostrar a produção de artistas de países e gerações diferentes que atuam além das categorias para refletir sobre os desdobramentos da estética do cotidiano na arte contemporânea, borrando os limites entre arte erudita e popular, figuração e abstração, o original e a cópia.

O uso da cópia, está no cerne do Projecto Bambaismo, de Daniel Barclay. A origem colonial da palavra Bamba descreve a ação de vedação de moedas existentes, redefinindo o valor do objeto original e designando, no Peru atual, as cópias clandestinas de imagens e objetos. Transpondo a prática para o domínio da arte, Daniel Barclay questiona o valor da obra, reproduzindo de forma voluntariamente imperfeita, cópias de esculturas antigas e pinturas famosas. Neste exercício formal, os códigos intrínsecos da obra permanecem, porém alterados à medida das novas leituras.

A mesma busca formal caracteriza as obras de Mayla Goerisch, Mano Penalva, Sergio Pinzón e Matheus Chiaratti. Desviando as qualidades físicas de objetos comuns, eles os transformam em esculturas ou pinturas, derrubando as estruturas clássicas da arte e buscando o acabamento na composição e na cor através de uma iconografia inspirada de memórias ou lugares pessoais. Assim, as sacolas de lona ou espreguiçadeiras de Mano Penalva recebem novos volumes e funções, enquanto Mayla Goerisch cria com Meeting Points, totens a partir de empilhamentos de baldes coloridos. Sergio Pinzón, na suas Variaciones sobre una polo, parte das listras de uma camiseta na tentativa de representação da paisagem e, por sua vez, Matheus Chiaratti sobrepõe nuances de peças de seda numa “quase pintura” imersiva, desdobrada em escultura de madeira, reinventando cores da natureza. 

É a dimensão mística da natureza que está no centro das obras de Mariano Barone, Bruno Brito e Martin Lanezan, cujas pinturas adornadas de objetos estão carregadas de simbologia popular e parecem reunir as energias do mundo. A Coluna de Bruno Brito, constituída de concreto e madeira, evoca um axis mundis ligando o humano ao universo, celebrando a engenhosidade e o imaginário vernacular. Quanto ao Mariano Barone, mesmo dialogando com as camadas de informações que se encontram nas paredes da cidade, ele resgata em Zombies are good for your health, o espírito da natureza, em uma composição de lonas e desenho de inspiração rupestre.

Finalmente, Tatiana Dalla Bona e Leda Catunda traduzem a saturação visual contemporânea; Tatiana Dalla Bona revela nas suas assemblagens uma cidade onde a poesia se esconde atrás dos tapumes coloridos e dos véus de prédios em obras, enquanto Leda Catunda, com a “quase escultura” Bípede, observa a macroeconomia do universo do esporte. Nela, células articuladas organicamente, alternam logos da NBA e estampas tradicionais, formando um bicho exótico cujas pernas se expandem no chão e cuja pele contrastada remete de um lado, ao universo feminino - da sua “estética da maciez” - e de outro, a brutalidade da identificação imprescindível a um grupo e do luxuoso universo do esporte profissional.

O Maravilhamento das Coisas contempla assim, as estratégias de apropriação de referências pessoais ou populares pela lente subjetiva e afetiva dos artistas, projetando formas simbólicas para ou além da parede. Ao criar novas funções e significados, transpondo lugares conhecidos para o lugar da arte, a coletiva traz à tona o deslocamento operado pelo artista, aplicando o paradigma da arte contemporânea na sua relação mais íntima com o público. Neste jogo de possibilidades, de expansão e permeabilidade dos conceitos da obra de arte, beleza e finitude, estética formal ou informal, somos convidados a uma jornada empática no universo particular desses artistas, no campo lúdico da arte, do maravilhamento das coisas.

 

Julie Dumont

The Bridge Art Project

 

*

 

Bruno Brito, Jacaréi, Brasil, 1992

Artista multidisciplinar, sua pesquisa atravessa o campo da arquitetura e dos procedimentos do universo vernacular brasileiro. Bruno Brito é formado em Artes Visuais pela UNESP. Vive e trabalha em São Paulo. 

 

Daniel Barclay , Lima, Perú, 1972

Artista  multidisciplinar, sua pesquisa se concentra na representação de identidades e geografias; aproximando os conceitos através de instalações e pinturas nos quais diversos códigos de leitura coexistem. Estudou artes plásticas na escola de arte Corrente Alterna (Lima), e na Central Saint Martins (Londres).

 

Leda Catunda, São Paulo, Brasil, 1961

Artista multidisciplinar, Leda Catunda investiga o imaginário popular, explorando as limites do campo pictórico com obras voluptuosas, pinturas objetuais nas quais ela usa principalmente materiais industrializados e técnicas artesanais, apontando os paradoxos do nosso mundo, encantador e saturado de informações e violência. Estudou na FAAP e expôs na América do Sul, na Europa e nos Estados Unidos. Dentre as exposições individuais, destacam-se Leda Catunda: 1983–2008 (Estação Pinacoteca, São Paulo, 2009), Pinturas Recentes (Museu Oscar Niemeyer, Curitiba e MAM Rio de Janeiro, 2013) e  I Love You Baby (Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, 2017). Participou de coletivas chaves tais como Pintura como Meio (MAC-USP 1983) e Como Vai Você, Geração 80 (Parque Lage 1984); e das Bienais de São Paulo (1983, 1985, 1994), do Mercosul (Porto Alegre 2001), da Havana (1984) e Oito Décadas de Abstração Informal (Museu de Arte de São Paulo, 2018). Vive e trabalha em São Paulo.

 

Matheus Chiaratti,  Birigui, Brasil, 1988

Artista multidisciplinar, Matheus Chiaratti traz na sua produção lembranças pessoais ou históricas do Brasil caipira, religioso e barroco, abordando questões contemporâneas tais como a solidão e as relações humanas. É formado em Imagem e Som pela UFSCar e pela Universidad de Buenos Aires (UBA). Vive e trabalha em São Paulo.

Mariano Barone, Santa Fe, Argentina, 1985

Trabalhando principalmente com desenho, pintura e serigrafia, Mariano Barone compõe obras gráficas intuitivas, traduzindo o ruído da cidade, às vezes contrastado por um resquício de natureza. Está graduando em Artes Visuais pela UNESP, e participou dentre outras exposições do 43º Salão de Arte de Ribeirão Preto (2017). Vive e trabalha em São Paulo.

 

Tatiana Dalla Bona, Paris, França, 1981

Formada em Artes Plásticas pela Faap em 2017, Tatiana Dalla Bona trabalha com instalação, assemblagem, pintura e desenho, reinterpretando graficamente elementos visuais do cotidiano tais como a arquitetura. Teve sua primeira individual, FORMA, em 2017 com curadoria de Maria do Carmo M. P. Pontes. Vive e trabalha em São Paulo.

 

Mayla Goerisch, Curitiba, Brasil, 1984

Artista autodidata, Mayla Goerisch é formada em História pela Universidade Federal do Paraná. A artista explora materiais diversos reorganizados em esculturas, pinturas e objetos, fragmentos de uma narrativa da vida cotidiana. Participou de coletivas na galeria Jacarandá, no espaço Saracura, na Casa Nubam e na Bienal da Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro. Vive e trabalha no Rio de Janeiro.

 

Martin Lanezan, General Juan Madariaga – Argentina, 1982

O trabalho do Martin Lanezan è voltado para pintura e integra nela objetos e referências populares, transformando a prática pictórica num ritual. Licenciado em Arte, orientação em Pintura na UNA (Universidad Nacional de Arte, Argentina), ele expôs em cidades da América Latina e recebeu o Primeiro Prêmio da Seleccion Proyecto A 2008 e Primeiro Prêmio em Bairro Jovem, ArteBA 2012. Vive e trabalha em São Paulo.

 

Mano Penalva, Salvador de Bahia, Brasil, 1987

Artista multidisciplinar, Mano Penalva observa e transpõe a estética do cotidiano para o campo da arte, quebrando a normalidade e a unilateralidade de função de objetos corriqueiros. É formado em Comunicação Social (2008, PUC-RJ), Ciências Sociais (PUC-RJ) e frequentou cursos livres de arte no Parque Lage. Expôs na América Latina, nos Estados-Unidos e na Europa, com destaque para as individuais Balneário, Central Galeria (São Paulo, 2016); Estado Sul, Camelódromo (Porto Alegre, 2017); Andejos, Museu de Arte de Ribeirão Preto e para as coletivas A Bela e a Fera, Central Galeria (São Paulo, 2017); Hecha la ley, hecha la trampa, Hangar (Barcelona, 2017); Simphony of Hunger: Digesting FLUXUS in five moviments, A PLUS A Gallery (Veneza, Itália, 2015); e CONTRAPROVA, Paço das Artes (São Paulo, 2015). Vive e trabalha em São Paulo.

 

Sergio Pinzón, Bogotá, Colombia, 1988

Sergio Pizón se apropria e recria imagens, questionando a realidade delas e abrindo caminhos para novas leituras. Formado em artes plásticas da Universidad de Los Andes e em poéticas visuais da USP, ele participou da gestão do Ateliê397 em São Paulo. Vive e trabalha em Bogotá.