PONTO DE FUGA

J. PAVEL HERRERA

30.11 a 22.12.2017

Curadoria: Paula Borghi

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É sob a ótica de viver pela primeira vez fora de uma ilha, que o artista cubano J. Pavel Herrera observa-a de outro ângulo. Se é certo que a re- presentação de imagens em perspectiva é per- cebida a partir de um ponto de vista xo, aqui essa acompanha também a localização subje- tiva de onde este olhar partiu até se xar no presente momento.

A partir deste movimento de deixar o lugar de origem para voltar a visualizá-lo desde ou- tro ponto é que os trabalhos apresentados em Ponto de fuga se baseiam. Fez-se necessário um distanciamento do artista de sua terra na- tal para melhor compreender algumas questões pela vivência num outro país e desconstruir a ideia de ilha que conhecia até então. Uma ex- posição que sai e retorna a ilha com a liberdade de ir e vir.

Com esta liberdade geográ ca e poética a fuga se dá no campo da ideia e do olhar. Não se trata de fugir de um lugar e sim de voltar a ele por uma nova perspectiva. É através deste gesto que somos convidados a observar a paisagem desde o ponto de vista de alguém que esteve ilhado. Pavel nos apresenta imagens que apon- tam para além da linha do horizonte, uma vez que os trabalhos em exposição estão dispostos tal qual a posição de quem as vivenciou; linha do horizonte na altura dos olhos do espectador e ilha repousando sobre o chão na horizontal.

Quanto as pinturas dispostas na parede, estas são paisagens construídas a partir de uma linha luminosa que perpassa a imagem de ponta a ponta da tela, tal como um feixe de luz segun- dos antes do entardecer ou depois do amanhe- cer. E da mesma forma que não se sabe se o sol está se pondo ou nascendo, também não se compreende ao certo se o céu está na parte superior ou inferior da composição. Existe uma marcação indecifrável, cíclica e constante do tempo, como também do espaço em suspensão.

Enquanto nas demais telas a luz se faz horizonte, na série de pinturas em papel “7 noites 365 dias” é a cerca quem cumpre a função di- cotômica de ponto de fuga e não fuga. Aqui é ela quem delineia a noção de paisagem, mesmo sendo um elemento construído para delimitar passagem. Porém, trata-se de uma delimita- ção temporal que se dá através das variações de sombra que existe entre cada uma das sete partes da série. Não há nada para se ver detrás daquela cerca além da espera.

São nas pinturas com vista aérea que as fron- teiras deixam de representar o tempo para de- marcar o espaço. A ilha enquanto signo toma forma em “Cayo Ernst Thalmann” e “Geogra a Econômica”, tanto através de suas imagens, quanto pela maneira com que estão dispostas; na horizontal e sobre tijolos. E se em um pri- meiro momento não se reconhece a qual ter- ritório pertence o arquipélago, é porque este não está representado dedignamente ou pelo menos não como é lembrado no imaginário coletivo.

Em “Geogra a Econômica” Pavel retira a ilha que se conhece como Cuba e deixa em evidên- cia todo o restante do arquipélago. O que se vê são ilhotas que pertencem ao país Cuba, porém que os cubanos não tem acesso. Logo, um es- paço intangível para sua população, desconhe- cido no mapa e que atua como uma espécie de paraíso fiscal.

Partindo desta mesma pesquisa, “Cayo Ernst Thalmann” leva o nome do político comunista e ativista alemão homenageado por Fidel Castro em 1972, quando o governante cubano decre- ta simbolicamente a ilha Cayo Ernst Thalmann (até então chamada Cayo Blanco Del Sur) como território da Alemanha Oriental. Até os dias de hoje a ilha permanece com sua história nebulo- sa, uma vez que este território foi presenteado a um governo que não mais existe.

É impossível dissociar a história de Cuba da obra de Pavel, porém é importante reforçar que a exposição, mesmo abordando questões polí- ticas, não tem como objetivo criar julgamentos. Trata-se de olhar desde outra perspectiva, ob- servar de fora para enxergar outros pontos de vista. 

Paula Borghi