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RA.DI.CAN.TE

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RA.DI.CAN.TE

REGINA JOHAS

14.09 a 08.10.2016

Curadoria: Douglas de Fretias

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voltava sempre aos territórios dados pelo limite do instante / tempo transitório / um dia cansou-se de andar em círculos trêmulos / pôs em movimento as próprias raízes / movências / ser radicante num gesto sem espaço / não demorar-se no lugar / quando ir embora é uma lua que vai murchando para dentro / para que sejamos donos dos céus de nossos dias / reconheço os meridianos os rios e coordenadas do mapa /a estrada precária / lá onde não roubarás minha cor grená 

 

Regina Johas

 

“A botânica poderia ser descrita como uma ciência de movimentos, um discurso sobre as formas de vida e seus modos de crescimento. Vista como tal, não está tão longe da arte.”

Nicolas Bourriaud. Nicolas Bourriaud: Para onde vamos? Entrevista por Paula Alzugaray e Giselle Beiguelman publicada na Revista Select #9, disponível em http://www.select.art.br/nicolas-bourriaud-para-onde-vamos/

 

 

 

Em um de seus livros Nicolas Bourriaud empresta da Botânica o termo “Radicante”, que diz respeito às espécies de plantas que projetam varias raízes a partir de diversos pontos de sua extensão, distribuindo assim sua fixação. Bourriaud usa o termo para lançar reflexões sobre a globalização cultural e o multiculturalismo, ressaltando a importância dos caminhos e trajetórias realizadas pelo sujeito radicante, criando raízes e se ramificando por onde passa, assim como a planta.

 

Radicante também nomeia a exposição que Regina Johas apresenta na Galeria Sancovsky, tomando o mesmo termo da botânica para nos apresentar suas investigações sobre deslocamentos, localizações, fluxos, relatos, lugares e pertencimento.

O ponto de partida de Regina são registros colhidos ao longo dos últimos dois anos, nos mangues de Celestún, situados na província de Yucatan (México) e nas rotas do ciclo do açúcar de Ceará Mirim, no Rio Grande do Norte (Brasil). Juntam-se à eles, sons e imagens capturadas em viagens entre o continente europeu e americano, assim como apropriações de filmes de mangues realizados por outros artistas. Para Regina, imagens e sons são anotações, rabiscos, fragmentos temporais e transitivos que atentam para apontamentos de instantes fugidios.

As obras apresentadas na exposição são o lugar de cruzamento de conhecimentos, aproximações e semelhanças, onde escrita, corpo, imagem, cor e movimento se tocam. Nos trabalhos, versos e palavras se sobrepõem a chapados de cor e imagens de mangues, raízes dessa botânica radicante, previamente manipuladas e espelhadas pela artista. As cores estão indicadas por seus códigos RGB e CMYK, como tentativa de identificação, de definição precisa, mas que sabemos ser imprecisa. As imagens se apresentam duplas. Divididas em si, ou sobrepostas em outras. No vídeo são captadas em trânsito, vistas a partir do avião, do carro, do barco ou do trem. Estão dobradas e se camuflam em meio às raízes. Fazem buscar algo que se revele nesse percurso.

Movências é a reflexão que ganha o desenho de uma espécie de linha do horizonte em palavras quase ocultas na parede da Galeria. Em um tom claro, apenas uma diferença de reflexo na cor da parede, a leitura deste texto precisa ser próxima, o espectador é convidado a se aproximar para decifrar o que aquele horizonte diz. A proposta aqui é também deslocar-se, ou quem sabe nos fazer perceber que também somos seres radicantes.

Douglas de Freitas