RUÍDO E AUSÊNCIA CONTÍNUOS

ILÊ SARTUZI, JORGE LOPES, MARIANO BARONE,

RAFA MUNÁRRIZ, RAQUEL UENDI

E RODRIGO ARRUDA

05.04 a 05.05.2018

Curadoria: Guilherme Teixeira​

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Não há resposta e de certo modo todo esse deslocamento não causa se não imprevisibilidade não sabemos o que estará lá quando dermos um passo para trás não sabemos nem ao menos se demos um passo como aquele personagem na peça de Beckett que está numa sala no escuro e não sabe se em pé ou deitado ou sentado e que fala com alguém e não sabe se aquela pessoa é ele mesmo ou um outro. Nunca saberemos se há algo ali.

Como objetos que se movem de seu lugar para um lugar anterior, a dicotomia entre presença e ausência circunda há muito o modo como tecemos nossas relações, seja com objetos ou com o outro. Marco Aurélio, governador romano do século 2, após a morte de sua esposa Faustina, ordenou que fosse feita uma imagem de ouro à sua semelhança para que se sentasse ao seu lado quando ele próprio fosse a espetáculos. Henry Moore, escultor norte-americano, é um dos pioneiros em incorporar o vazio às suas composições escultóricas, fazendo com que a matéria o abraçasse. John Cage, músico também norte-americano, compôs peças como 4’33”, onde o real material que se apresenta não é a articulação de um instrumento, mas sim os ruídos da plateia e do que se sucede nos quatro minutos e trinta e três segundos que duram a apresentação. Partindo daí, a presente exposição investiga e articula os limites e as implicações da ausência e da presença na produção hoje: O impacto com um corpo, o impacto com a ausência de um corpo; O impacto com a forma; o impacto com a ausência da forma; O impacto com a matéria, o impacto com a ausência de matéria.

 

Assim, uma massa aparentemente disforme parece sair da parede e de início não compreendemos o seu caráter. Uma aproximação possibilita que linhas dos mais variados tons se apresentem, assim como um conglomerado de palavras agora destituídas de seus contextos e sentidos. “Desenho”, de Raquel Uendi, apresenta uma relação íntima entre o gesto da artista, tanto nos grafismos que circundam a parte superior da escultura, quanto no manuseio que dá limites àquela forma amassada. Na parte inferior, somos movidos por entre fragmentos de palavras pertencentes a poemas de Allen Ginsberg, agora dissolutos e indecifráveis, nos confrontando com a ideia de quais seriam suas possíveis mensagens, agora ali perdidas. E assim seguimos nos questionando sobre os limites e o que é semântica quando “sem título (vedetes)” de Ilê Sartuzi nos apresenta um recorte das bocas em movimento de diversas atrizes de Hollywood, sobre uma máscara de manequim ligada a um motor que, aqui, sem profundidade, produz um movimento dessincronizado entre aquilo que busca representar e a deformação que cria sobre sua própria enunciação: “o real sempre se revela na ruína de um semblante”.

“90º a esquerda, 180º a direita”, uma voz em off narra imperativamente a um pequeno planador, alterando os graus até a sua derradeira aterrissagem, em “Prática IV” de Rafa Munárriz, que a partir de estudos sobre diversos circuitos e suas imbricações, elegeu um destes para ser circunscrito no céu. Ali, contra azul, o planador toma a posição do corpo do artista, tornando o seu gesto desenho ou escultura invisível que nos remete aos estados suspensos que nos circundam, embora dificilmente sejamos capazes de testemunhar a todos, como o próprio pouso do planador que nunca se concluí.

Também, uma assimilação frenética de objetos cotidianos e gestos milimetricamente convulsos se apresentam como em uma constante via de desaparecimento na série de 3 dípticos “Sem Título”, de Mariano Barone, onde a eletricidade do amarelo propõe uma circularidade, um início e fim, mas vagamente um meio, onde o movimento entre raspagens e fitas trazem ao olhar um espaço não acessado da composição.

 

Como em um aceno histórico, dois estados da mesma matéria repousam sobre o chão: dois quadrados de 80 por 80 centímetros compõe a instalação “Sem título”, de Rodrigo Arruda. Como em um looping intermitente, somos confrontados pelo estar bruto (areia) e o estar manipulado (vidro), aqui, também cindido em direção às suas arestas, em um movimento centrífugo que parece visar uma fuga ou um retorno a seu estado cabal. Também apoiado na relação entre dois estados da mesma matéria, junto a um vaso e à terra, um outro corpo também toma o chão: o do performer Jorge Lopes. “O Falecimento da Escuta”, que em um caminho busca enunciar um espaço de constante indiferença, um psophos, um ruído, um som inarticulado é, também, um distanciamento pela (re)substantivação, onde a história de diversos corpos é reapropriada, numa escalada silenciosa outra em busca da reconstrução de uma nova semântica étnica e social.

Então, a partir de todos os impactos, sejam eles físicos ou não, parece que finalmente descansamos, e agora observamos aquilo que, embora pulsante, soa aos olhos como um espaço vazio. Nos perguntamos sobre a real materialidade de todas aquelas efetivações, e nos questionamos se o denominador comum que de fato apresenta uma resolução a este paradoxo não somos nós, que com nossos corpos os tornamos uma contradição harmônica. 

 

Não há resposta.

Guilherme Teixeira