UMBIGO

LUÍS TEIXEIRA

20.09 A 20.10.2018

Curadoria: Leonardo Araujo Beserra

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ONFALITE (ou a graça numa epistemologia da subjetividade)

 

o imanifesto e o manifesto     consurgem

o fácil e o difícil             confluem

o longo e o curto               condizem

o alto e o baixo               convergem

o som e a voz                  concordam

o anverso e o reverso          coincidem

ZI, LAO. Dao De Jing, entre 350 e 250 a.c.

Internação (OU EU)

Com cerca de um mês e meio de vida minha filha Martina amanheceu com febre. Eu e minha companheira, um pouco consternados com a realidade paternal e maternal do momento, não soubemos reconhecer tão rapidamente o que estava ocorrendo com ela. Até que Denise, a mãe, resolveu tirar a roupa da bebê e encontrou o início de uma irritação em sua pele umbilical. Rapidamente entramos em contato com o pediatra responsável pelo acompanhamento de nossa filha e fomos indicados por ele a nos encaminhar o mais ligeiro possível ao pronto socorro infantil mais próximo. No hospital, fomos alertados facilmente quanto ao diagnóstico: onfalite.

Onfalite é uma inflamação ocorrida nos tecidos moles e circundantes do coto umbilical, muito comum em bebês recém nascidos de até 15 dias de vida, que estão em processo de cicatrização após o corte do cordão umbilical. As maiores causadoras da inflamação são bactérias presentes no ambiente do parto ou alojadas na corrente sanguínea da mãe. 

Denise e Martina passaram onze dias e dez noites internadas no hospital, eu as acompanhava nos horários de visita (10h às 20h). Mesmo após sua liberação, no caso de Martina, a onfalite até o presente momento não foi justificada. Não só seu coto já se encontrava totalmente cicatrizado antes da ocorrência, mas também seu umbigo em formação plena. O absurdo ao qual tivemos de compreender a doença teve que ver possivelmente com, primeiro, a demora em que a bactéria veio a se manifestar, caso tenha sido mesmo esta causa - objeto estranho para os médicos, já que se demonstrou uma situação incomum dentre os quadros estudados. E, segundo, a possibilidade da mesma bactéria ter adentrado posteriormente a corrente sanguínea da bebê, outro caso completamente esquisito já que as bactérias causadoras não costumam sobreviver externamente, tanto tempo fora dos ambientes internos dos mamíferos.

 

A inflamação, de imagem purulenta e odor recoso, inexplicável mesmo após dez meses de vida de Martina, remonta até o presente imaginações, especulações, paranoias e ficcionalizações. O processo absurdo ao qual a família passou e ainda passa perante a falta de lastro com a origem do problema oferece lugar ao escritor, esta primeira pessoa que “inscreve” Umbigo de Luís Teixeira num discurso, em gerar aproximações também injustificáveis das obras apresentadas na exposição pelo artista à literatura filosófica da patafísica.

Enfermidade (OU A COISA)

Patafísica é uma área do conhecimento que surgiu em meio a literatura moderna por meio das criações do dramaturgo francês Alfred Jarry. Finalizado 1898, mas publicado em 1911, Gestes et opinions du Docteur Faustroll, pataphysicien: roman néo-scientifique; suivi de Spéculations é o texto responsável pela criação desta neociência. Ela, que até hoje gera espanto com seus métodos rigorosos ao mesmo tempo que descontraídos, é responsável por exercer a desconstrução do real a fim de reconfigurá-lo no completo absurdo.  

A imagem que a leva até a atualidade também é uma criação de Jarry, porém foi produzida e veiculada antes de ser configurada patafisicamente, na metodologia absurda de Doutor Faustroll. Ubu Rei, peça teatral do dramaturgo, apresentada em um exercício aos amigos em 1894 e tornada espetáculo em 1896, é a obra responsável por gerar a simbologia da ciência que citamos. Nela se apresenta Ubu, rei de Aragon, doutor em patafísica, capitão do exército, tirano irrefreável e o maior egoísta do universo. Do centro do corpo da personagem é possível ver sair um espiral, uma linha que roda infinitamente a partir de seu umbigo, de onde tudo sai e tudo retorna.

A imagem do espiral que tudo suga e tudo externa pode ser um tanto complexa, um objeto de construção-destruição, de estabilidade-instabilidade, equilíbrio-vertigem. A irracionalidade em que a personagem se espreita para imaginar todas as possíveis dominações e individualidades fazem de suas palavras a criação de diferentes e diversas exceções das regras físicas do mundo, da sociedade e da vida. Beirando a loucura, Ubu, com seu caráter descaracterizado, nos propõe o absurdo do absurdo, a inflamação febril da consciência, a pulsão da subjetividade como antídoto da realidade e veneno no desejo em desconstruí-la. O umbigo em constante movimento de Ubu confunde a força nuclear do pensamento, o peso das ideias e a gravidade da imaginação que dele surge. Ao vê-lo, observar o mundo já não é o mesmo, tanto o mundo não é mais mundo quanto observar não é mais a mesma coisa que estar atento.

Não se trata de produzir a experiência das ilusões, enganar pelas aparências ou falsear os fenômenos, mas de engendrar o absurdo do desconhecido ao real, de inverter o que se conhece e disso obter um outro inexplicável, sem contexto com a realidade.

As definições da patafísica são várias e, muitas vezes, umas complementam as outras. Segundo o próprio Jarry e alguns sátrapas do Collège de Pathafisique, ela é a ciência das soluções imaginárias, uma ciência da particularidade que produz leis que regulam as exceções. Ela está para a metafísica assim como a metafísica está para a física, opostas. Ao descrever um universo suplementar ao que conhecemos, produz outro universo diretamente relacionado ao nosso.

É possível entender que, ao rigor da imaginação que soluciona as questões do real e para isso gera inúmeras restrições por meio de leis que asseguram a realização das exceções, se dá uma seriedade formal de profundo trabalho material. Compreendendo-se para isso que as idéias da imaginação produzem formas plásticas resolutas no campo da realidade. Ao ser estabelecido que inúmeras limitações devem ser o campo de criação, a patafísica compreende que a própria realidade implica na dificuldade de imaginar, pois antes o mundo se rege por meio de leis físicas “quase” imutáveis. Desse modo, essa ciência, a produção consciente de uma onfalite subjetiva, compreende que o melhor para imaginar é restringir ao máximo a própria imaginação, como o próprio real já o faz.

Antibiótico (OU VOCÊ)

Os materiais de interesse de Luís Teixeira são restrições latentes nos exercícios formais de sua imaginação. É sabido que nem sempre é fácil tornar real uma ideia. As formas requeridas se insustentam na concretude dos objetos que a compõem, e é justamente aí em que se encontra a força política do trabalho do artista, no que irei chamar de gravidade invertida - o campo de suspensão do real na imaginação.

Não quero dizer com isso que os trabalhos dessa exposição, em uma comunhão expositiva egoísta, produzem a suplementação de nosso mundo. Nada tão pretensioso, mas também com pouca modéstia compreendo que Umbigo, ao exercer o equilíbrio das formas nas instabilidades de posição dos objetos, gera experiências em mais e menos graus instáveis e estáveis. As percepções angustiadas que não se aquietam facilmente em concepções e referenciais ligeiros e, ao mesmo tempo, sensações de queda, medos de quebras e suposições de continuidades impossíveis são a inversão em acontecimento.

 

O caráter incipiente do campo gravitacional que Teixeira cria em Umbigo com uma

multiplicidade de objetos tri e bidimensionais é, antes de qualquer coisa, de ordem orgânica, seja pela psique seja pela ciência. Além do horizonte, além de tudo, além da natureza é que se cria, apropriando-se sempre das coisas do mundo. Se a própria metafísica não alcança a explicação da física, seriam então uma metametafísica que conteria as ambições do absurdo no real?

O absurdo em Umbigo não se ergue pela dúvida do equilíbrio que os trabalhos exercitam expansivamente em suas formas, mas se cria pela certeza de suas impossibilidades. E os dois não são a mesma coisa quando gerenciados na experiência do olhar: uma queda que sobe ou um levante que desce se assemelham neste universo.

Há nesta ambiguidade das formas nos trabalhos de Umbigo uma exigência rigorosa de produção, como se os escapes orgânicos que os materiais dos trabalhos criam fossem incorporados sempre como obstruções de execução física das composições, tanto nas pinturas quanto nas esculturas. Principalmente quando uma complementa a outra sem deixar claro a retroalimentação que fazem mutuamente para coexistir.

Nada mais político dentro deste campo gravitacional que a exposição sugere do que a proposta de reconhecer a biologia própria dos materiais como reguladoras da inversão absurda da gravidade que nela se constrói. Se uma regra fosse comum a todos os objetos desse ambiente, não seria possível encontrar individualidades nas transgressões formais que cada um deles exige. É como se cada objeto estabelecesse um acordo comum com todos os outros de que, ao se apresentarem, a primeira lei que os regeria seria a da singularidade. Portanto, a política que em Umbigo se impõe é, antes, um fundamento material e, depois, uma qualidade heterogênea, no que consiste implicar não a produção da vertigem em quem olha, mas de questioná-la enquanto reflexão plástica. Ou melhor, uma plasticidade que não se apalpa, se vê ou se sente, mas faz perguntar: a política da forma singular?

Alta (OU AS COISAS DA COISA EM VOCÊ POR MEIO DELA)

Em Dominó, quatro paralelepípedos de madeira de construção civil são compostos por duas junções de lençóis de látex que envolvem cada dupla das vigas. As duplas se apoiam uma a outra através da força de tensão que os invólucros pretos de borracha produzem na fricção entre os paralelepípedos. Ao se disporem em diagonal, posição impossível para suas realidades, e sugerirem por isso uma espécie de fotografia de suas quedas, os quatro blocos de Dominó fazem do outro o seu médico cirurgião - o que irá investigar o que ocorre com seu corpo. Não podendo descobrir o fenômeno, a inflamação produzida na doença de sua forma não se encontra mais no objeto que a produz, mas no observador.

Outra transposição da doença entre objeto e sujeito ocorre em Espelho D`agua, em que fios de metal prateados aparentam sustentar um trapézio estendido de madeira. São quatro arames presos a parede que poderiam suspender um caibro com as mesmas proporções físicas que as disposições das linhas sugerem. A suspeita sobre o exímio equilíbrio que ocorre entre as formas e suas materialidades, construindo um triângulo isósceles tridimensionalisado pregado à parede, poderia ser suprimida caso fosse possível obter a certeza que os dois pregos abaixo da superfície do caibro que encosta na parede realmente sustentam todo o objeto. Não podendo compreender o que ocorre no equilíbrio sugerido pela forma, o conhecimento do trabalho se dá em uma proposição contínua de reflexão sobre seu acontecimento.

Com Perfuração a gravidade é a ordem. Nele, a inversão comentada não parece se realizar, o puxão do núcleo do planeta se dá para baixo, a atmosfera empurra para o centro, o peso cai como de costume. A literalidade de Perfuração, no que consiste a ambiência invertida construída em quase toda a exposição, indaga o observador ao erro. Uma falha ocorrida internamente na composição do ambiente, pois o campo gravitacional não está subvertido pelas formas. Tal realidade pode incomodar, mas é justamente deste pus que sai da ferida da percepção que Umbigo re-adiciona ao médico sua política própria. Com o cubo de madeira que pressiona aparentemente três invólucros circulares de lençóis de látex preto, o título do trabalho implica a continuidade da ação gravitacional, como se um furo no chão fosse realizado pelo peso intenso de um material que pressiona uma moleza. Esta heterogeneidade que Perfuração produz no todo de Umbigo faz imaginar um testemunho civil que atravessa subjetivamente nosso mundo e fisicamente o planeta. O rigor que a forma aí estabelece ocorre principalmente em sua exigência em nos propor imaginar o absurdo de sua completa realização.

No que concerne às pinturas de Umbigo, o campo gravitacional recorre à personificação das formas em suas composições gráficas, tornando a materialidade dos objetos tridimensionais da exposição re-imaginadas e reflexionadas por meio dos signos engendrados nas geometrias orgânicas dos terrenos ocupados pelas cores.  A mudança de perspectiva com as pinturas pede uma inversão na gravidade do próprio pensamento do observador. Este procedimento, requerido à postura de leitura de suas formas, revisita a política da singularidade quaisquer que todas as coisas que o espiral da exposição implicam: uma vertigem na epistemologia dos objetos. “Quaisquer”, nesse caso, como plural que não acompanha o singular de “singularidade”, quer dizer que mesmo sendo qualquer a universalidade do singular ainda sim deseja que a infinidade das coisas que “quaisquer” abriga direcione a identidade da individualidade de cada uma delas. Desse modo, o que as pinturas intencionam neste outro campo gravitacional da exposição é fazer do leitor um outro que não pode se definir mas pode se compreender diferentemente, um outro outro que cai pra cima, pesa pro horizonte e desce para as nuvens com seu pensamento.

Em Ampulheta, pintura que recorre à velatura para tanto compor campos de cor densos quanto orgânicos e translúcidos, um mínimo triângulo equilátero é formado pela incidência da margem na forma total pintada internamente ao suporte. O branco que margeia se lança para dentro do gride retangular da forma pictórica como uma lança que cutuca o peso do preto e o sustenta pela ajuda da leveza do vermelho e do azul. Este branco corajoso, forte o suficiente para suportar a pressão de um blackout, demonstra a capacidade de abarcar as cores. Cientificamente, sabemos que a luz contém todas as cores, assim como a mistura de todos os pigmentos de tinta produzem o negro. Nesta ambiguidade que consiste na percepção antagônica entre iluminação cega e materialidade pictórica da cor é que Ampulheta faz refletir o movimento interno do tempo. Demonstrando que não há em seus signos uma linearidade ocidental, a duração de ajuste entre a luz proposta pelo pequenino triângulo e a objetualidade acrescida pelas cores com outras formas geométricas acontece, primeiro, em imaginar um eterno retorno no tempo próprio das formas que o compõe e, segundo, em refletir sobre a suspensão que a perda de subjetividade gera na incompreensão de como tais formas orgânicas se criaram na imagem do trabalho.  

Retorno (OU TODOS NÓS E TODAS AS COISAS DA COISA DEPOIS DELA)

De volta ao real, saído do incipiente estado invertido da gravidade física, do pensamento e da percepção na imaginação, se faz importante andar sem que a sensação de estar usando um óculos novo com maior grau seja uma constante. Mas reconhecendo não estar dotado de todos os atributos necessários para andar, pois ainda há algo que ocorre na posterioridade da experiência que faz duvidar de si mesmo, uma certeza espreita. A claridade da reflexão incomum em duvidar do próprio movimento que se faz para conhecer novas coisas depois da doença.

E é aí mesmo que a onfalite se espalha aos órgãos internos do enfermo.

Que o jamais pensado taoísmo de Lao Zi e sua louvação à memória como dispositivo de criação do presente nos possibilite compreender a exclusividade da falta de imaginar o real e nos livre dele. Que a ambiguidade proposta na linguagem de seu Dao De Jing possa tornar a narração das coisas da vida uma constante incerta e, por isso mesmo, feliz, por que a única coisa possível no processo de subjetivação dos fenômenos é a suspensão deles em formas plásticas imateriais na interioridade dos corpos e suas mentes.

Aqui nos encontramos com nosso próprio umbigo.

A ciência dos problemas que não existem produziu, com seu exercício contínuo de produção de absurdos, uma extensão das figuras de linguagem, uma coisa que está além da metáfora porque a cerca dela se guarda. Como exemplo, os patafísicos, ao invés de dizerem que um objeto cai ao centro, dizem que seria melhor que ascendesse ao vazio até uma margem desconhecida.

Agora nos vemos em Ubu - patáfora.

Se não é um alastramento da subjetividade como enfermidade do pensamento, ou se não é um exercício contínuo para a percepção ambígua, ou se não é a produção de suposições estabelecidas por meio de suposições criadas ou mesmo se não é a fundação da política da singularidade das formas quaisquer, eu não sei o que ocorre nesta exposição.

Com o umbigo de Luís.

 

Setembro de 2018,

Leonardo Araujo Beserra.