DENTROFORA VOL. 3 UTENSÍLIO

DÉBORA BOLSONI, MARINA WEFFORT

12.08 a 10.09.2016

Curadoria: Douglas de Fretias

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u.ten.sí.lio sm (lat utensile+io2) Qualquer objeto, como instrumento, implemento ou vasilha, útil ou necessário aos usos da via diária, ou ao exercício de certas artes ou profissões Utensílios de cozinha, de escritório. Col: bateria, trem (de cozi-nha); aparelho, baixela (de mesa).


A terceira edição do Projeto DentroFora – Vol. 3 Utensílio – busca elementos para a sua construção, ao mesmo tempo em que presta reverência à outra feira da Praça Benedito Calixto, a feira livre que ocupa a Praça todas as terças-feiras. As artistas convidadas, Débora Bolsoni e Marina Wefort, retrocedem o industrial para o manual, fazem o caminho contrário à lógica evolutiva da indústria, redimensionando a posição desses utensílios no mundo. Agora eles surgem reprocessados, emergem como matéria prima bruta, usados em sua total potência formal, onde destrinchados e reconfigurados, são elevados à escultura, desenho ou pintura.


O universo doméstico prevalece, não mais como design industrial acabado, como o que nos rodeia em casa, mas sim como inacabado, frágil e precário. Esse é o ponto alto dos trabalhos, são suas potências. É a ideia de inacabado e precário que confere aos trabalhos a noção de ação. Os objetos aqui presentes se fazem e se mostram mais do que aparentam, carregam em si ação, deslocamento e movimento. São reflexos de atos também presentes no dia-a-dia da feira, como embrulhar, dobrar, descascar, mover, entre tantos outros. Nada parece estático, parece apenas pausado, na latência para que algo continue ou finalize

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Marina Wefort traça caminhos desfiando. São cortes de tecidos com cores claras, de presença leve e frágil. Os caminhos ali traçados, por mais labirínticos que possam parecer, seguem sempre a trama do tecido, horizontal ou vertical, qualquer ação fora dessa regra, anula o trabalho, tudo se desfaz. Montados diretamente na parede, porém separados dela por poucos centímetros, exibem suas entranhas de maneira silenciosa, se projetam sobre a parede, e vibram com o movimento ao seu redor. No objeto apresentado pela artista, mais uma vez o dentro e o fora das coisas se misturam. Utensílios de unidade de medida, copo e xícara, estão cheios um do outro. Envoltos em água, se fundem em um objeto único, em um jogo ótico, se tornam uma peça de cristal. A beira de transbordar, o conjunto todo pulsa entre solidez solene e fim iminente.

Débora Bolsoni perverte utensílios, desconstrói suas formas e utilidades, e as refaz. Mas agora, são formas estranhas, que resultam em utilidades inúteis, afinal nos utensílios, as formas são reféns das funções, eles não necessitam de beleza, e sim de funcionalidade. Caixas deixam de guardar para ser suporte e módulo construtivo, os azulejos, que são superfícies de acabamento de espaços internos aprisionam e comprimem um espaço em uma subversão da sua própria lógica. Carrinhos de carga são fundidos à bobinas de papel, que atravessam o espaço e se engolem, estão ali em ação travada. O papel é aquele dos mais ordinários, de embalar alimentos na feira, o papel manilha, mas que agora está convertido em uma espécie de tapete vermelho em posição de ataque, pronto para engolir também o espaço e quem passar por ele.


Engolir o espaço é a operação que Débora propõe em muitos de seus trabalhos. Seu desenho é apresentado com suporte próprio, que mesmo frágil e transparente acaba redesenhando a arquitetura, rejeitando as paredes sólidas e brancas da galeria, mas se suportando nela e se alinhando à ela. O desejo de reconstruir um espaço desconstruindo é a relação previamente encontrada nas obras das duas artistas. Se Bolsoni redesenha o espaço ultrapassando a escada reafirmando sua continuidade com a obra Carrinhos, e interrompe parcialmente o fluxo com sua meia parede transparente, Marina cria novos espaços. Seus tecidos são como plantas arquitetônicas, tem limite e estrutura pré-definida, e se parecem não fazer sentido como espaço para o corpo, é porque não são pensadas para o corpo humano percorrer, são desenhadas para que a luz e o ar percorra através deles e, para que de modo extremante delicado, eles também engulam o espaço ao seu redor.


Assim a exposição se converte em uma leitura poética da feira livre. É como se a feira se convertesse, se simplificasse, e de seu caos fosse extraída sua essência formal, em organização construtiva, em ordem de construção. Não que as obras desta edição deixem de se relacionar com o universo de antiguidades e design da feira de antiguidades que acontece aos sábados, pelo contrario, há nelas inteligência e compreensão apurada de design. O que acontece é que essa inteligência das artistas é usada para ver na configuração dos elementos, ações e utensílios da feira livre, no design banal e popular, potencial para arte.

 


Douglas de Freitas | Agosto de 2016